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A maior crise é a ausência de si

Foto do escritor: Irina Talbot
Irina Talbot
28 de nov. de 2025
3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Às vezes, a crise não começa quando tudo desmorona.

Ela não começa no dia em que o corpo pede uma pausa. Nem quando os sintomas se tornam impossíveis de ignorar. Nem quando percebemos que chegamos ao nosso limite.


Muitas vezes, a crise começa muito antes.

Ela começa quando deixamos de nos escutar.


Ilustração artística retratando um entardecer, a sombra de uma mulher olhando para o horizonte e um círculo branco atrás dela.

Quando seguimos atendendo às demandas do trabalho, da família, dos relacionamentos e da rotina, enquanto nossas necessidades vão ficando para depois. Depois da próxima entrega. Depois da próxima semana. Depois das férias. Depois que tudo se resolver.


O problema é que esse "depois" raramente chega.


Vivemos em uma cultura que valoriza produtividade, desempenho e resistência. Aprendemos a comemorar quem suporta mais, quem aguenta mais pressão, quem continua apesar do cansaço. Poucas vezes aprendemos a reconhecer os sinais de que algo dentro de nós precisa de atenção.


E é assim que o afastamento de si acontece.


Não de forma brusca.

Mas aos poucos.

Quando deixamos de perceber o que estamos sentindo.

Quando ignoramos o próprio cansaço.

Quando nos tornamos especialistas em cuidar de tudo e de todos, menos de nós mesmas.


Nem toda crise chega fazendo barulho.


Algumas chegam silenciosamente.

Na sensação constante de exaustão. Na dificuldade de sentir prazer nas coisas que antes faziam sentido. Na irritação que parece não ter explicação. Na impressão de estar apenas sobrevivendo aos dias.


Ou até mesmo, naquele incômodo difícil de nomear, mas impossível de ignorar: a sensação de que existe algo importante faltando.


Muitas pessoas descrevem esse momento como se estivessem perdidas.

Mas uma reflexão cuidadosa revela que, em alguns casos, elas não estão exatamente perdidas.


Estão afastadas de si mesmas.

Afastadas dos próprios desejos.

Das próprias necessidades.

Dos próprios limites.


E talvez seja justamente por isso que tantas tentativas de resolver o sofrimento falham.

Porque buscamos respostas rápidas para questões que precisam ser compreendidas com profundidade.


Tentamos eliminar o desconforto sem escutar o que ele tem a dizer.

Corremos para retomar o controle quando, talvez, o convite seja desacelerar e olhar para dentro.


Isso não significa romantizar o sofrimento.

Nem acreditar que toda crise traz aprendizado.


Mas significa reconhecer que o sofrimento pode carregar informações importantes sobre a forma como estamos vivendo.


Pode revelar excessos, apontar negligências e mostrar que estamos tentando sustentar algo que já não faz sentido. Pode nos lembrar de partes de nós que ficaram pelo caminho.


A Psicologia nos convida justamente a esse movimento: não apenas perguntar "como faço para parar de sofrer?", mas também "o que esse sofrimento está tentando me mostrar?".


Nem sempre as respostas aparecem rapidamente. E tudo bem.


Autoconhecimento não significa ter todas as respostas.

Muitas vezes, significa desenvolver a disposição para fazer perguntas mais honestas.

Como:


  • O que eu preciso hoje?

  • Do que tenho aberto mão para dar conta de tudo?

  • Quando foi a última vez que me senti verdadeiramente presente na minha própria vida?

  • Estou vivendo de acordo com aquilo que faz sentido para mim ou apenas correspondendo às expectativas ao meu redor?


Porque, no fim das contas, talvez a maior crise não seja a presença da dor.

Talvez a maior crise seja a ausência de si.


E talvez um dos caminhos possíveis de cuidado comece justamente aí: no reencontro com aquilo que, por diferentes razões, ficou esquecido dentro de nós.


🌿

Você não precisa esperar tudo desmoronar para começar a se ouvir.

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